Advertise with us
Reach Your Target Audience
Advertising is hard. We make it simple and effective.
Advertise With Us →
NEWS
Welcome to Saradas – The premier female bodybuilding archive.
Support Saradas Keep the archive alive with Bitcoin
BTC QR
1QDxcxUx8pnsZvauyVxTqaJrWkeNhQrPdK Donate →
Main Menu

Dona Irene (original em português, parte I)

Started by MuscleWomanBR, March 10, 2023, 10:23:30 PM

Previous topic - Next topic

MuscleWomanBR

        Com o fim do dia, dona Irene calmamente começou a fechar a casa. Não havia muito o que fechar nesse pequeno sobrado típico dos subúrbios metropolitanos brasileiros: as janelas dos dois quartos, no piso superior, as janelas da pequena sala e da cozinha, no piso inferior, com suas grades que ao mesmo tempo proporcionam a sensação de segurança e prisão. Depois contemplou os cômodos impecavelmente limpos e organizados da casa um tanto confortável, mas modesta, de baixa classe média. Uma ponta de solidão e tristeza visitou rapidamente seu olhar ao contemplar as fotos do marido e do filho sobre a cômoda onde jazia a TV desligada. Aos 58 anos de idade, dona Irene estava viúva há cinco. E há quatro seu filho emigrara para os Estados Unidos, desencantado com as perspectivas no Brasil. "Prefiro lavar pratos em Miami", disse o jovem quando decidiu emigrar. Recém-formado em engenharia civil numa universidade privada, cara e ruim, o rapaz nunca mais voltou. De vez em quando mandava notícias lacônicas, sempre desprovidas de afeto. Sua única irmã morava num distante estado do imenso país. E dona Irene nunca se dera bem com a família do marido. Parece que somente agora ela notou o quanto estava sozinha.
Na verdade, não estava exatamente sozinha. E para entender isso é preciso recuar um tanto no tempo.
   Poucas semanas após a morte súbita do esposo, dona Irene descobriu que ele havia deixado valor expressivo em investimentos financeiros que, com certeza, não estavam reservados para melhorar suas condições  tão frugais. A descoberta a chocou, pois, apesar de formarem uma família pequena, os três sempre viveram espartanamente. Nenhum luxo, nenhum prazer extra, nenhum conforto além daquele básico ou indispensável. O maior luxo que se permitiam eram jantares mensais na pizzaria do bairro e as viagens para visitar a irmã distante, a cada dois ou três anos. Dona Irene nunca se concedeu a menor vaidade. Pelo contrário, até aceitava humildemente os vestidos usados e as poucas bijuterias que as cunhadas lhe davam. Seus cabelos continuavam escuros porque ela os tingia em casa. Ela mesma fazia suas unhas, embora raramente. Ela mesma limpava, cozinhava, lavava para todos da casa. E ainda encontrava tempo para fazer apreciadas peças de tricô, vendendo-as – o que lhe permitia pagar as contas de luz, água, gás e internet.
   Sentada na sala segurando o extrato da conta secreta do marido, a viúva sentia um misto de perplexidade, indignação e dúvida. A perplexidade era mais por não saber o que fazer com esse dinheiro. Afinal, ela se acostumou a viver com pouco. Sobretudo habituara-se com a ideia de apenas esperar a velhice que se aproximava, poupando para pagar seu plano de saúde e enfrentar a decadência física. Foi quando seu olhar perdido encontrou a televisão, que nem percebeu ligada. Ela levou algum tempo para entender o que estava vendo. No programa vespertino dirigido às donas de casa, viu uma senhora bem mais velha exibindo seus músculos. O apresentador repetia, com certo toque de excitação sexual, sua admiração pelo abdômen definido da idosa de 70 anos. A mulher, com um olhar ao mesmo tempo orgulhoso e prepotente, não hesitava em exibir sua musculatura rígida e bem desenhada, exposta graças ao top esportivo e à calça legging – que ressaltava suas coxas grossas e torneadas, as panturrilhas proeminentes e as nádegas pronunciadas e duras. Dona Irene ficou chocada, porém, quando a mulher enrugada de cabelos tingidos de acaju passou a demonstrar sua força. O apresentador a desafiou a levantar 30 quilos com os braços. A velha sorriu. "Sempre começo com o dobro, só para aquecer", respondeu, agora com um olhar de desprezo. "Nos exercícios com pernas, começo com 100 quilos." Dona Irene ficou fascinada.
   Ainda com o extrato bancário na mão, surpreendeu-se com o fascínio. Não estava surpresa. Nem chocada. Muito menos indignada ou horrorizada. Estava fascinada. Observou com atenção a firmeza dos gestos, a autoconfiança e sobretudo a força muscular daquele corpo, que foi levantando cargas cada vez maiores, para delírio da plateia e do apresentador (que agora parecia sexualmente excitado, com uma protuberância cada vez mais indisfarçável nas calças). A própria dona Irene começou a se sentir excitada. Sexualmente excitada. Quando percebeu sua excitação, imediatamente desligou a TV. E, envergonhada, guardou o extrato bancário.
   Naquela noite, porém, ela não conseguiu dormir. A fascinação pelos músculos da mulher bem mais velha e a percepção de que o apresentador se excitara com a cena tiraram o sono de dona Irene. Não só isso. Nos dias que se seguiram ela se viu perguntando ao filho como fazer para acessar a internet no computador do rapaz. Embora estranhasse o súbito interesse da mãe, o jovem não se mostrou curioso pela curiosidade dela. E a ensinou a fazer buscas pelo Google e a navegar pelos sites. Bastou uma aula. Em poucos dias, dona Irene se revelou exímia navegadora, indo direto ao que lhe interessava e descobrindo algo que jamais pensara. Algo que estava completamente fora de seu imaginário de beleza e da estética corporal feminina. Dona Irene descobriu o fisiculturismo.
   Obviamente, ela sabia o que era musculação. Seu marido chegou a frequentar a academia intermitentemente. E seu filho era "viciado" em fitness, o que lhe proporcionava um corpo bonito e saudável, que dona Irene discretamente apreciava. Mas ela entendia que músculos e força física eram exclusivamente masculinos. Levantar pesos e tornear a musculatura era algo inclusive repugnante para mulheres, como sempre lhe ensinaram. O corpo feminino até poderia ser firme, mas jamais musculoso, e muito menos forte. Ou superior ao corpo e à força do homem.
        Ao ver a senhora na televisão, subitamente dona Irene sentiu algum desejo adormecido ou esquecido, pois aquela mulher realmente a excitara como nunca. A atração não era pela mulher, entretanto. Mas pela ideia de ser musculosa e forte. Ou forte porque musculosa. Mais que isso, seu desejo agora era despertar em outro homem a mesma excitação que a velha da TV provocara no apresentador. Foi então que dona Irene lembrou-se. Lembrou-se que, na adolescência e começo da juventude, havia sido uma mulher fisicamente ativa. Nascida no interior, numa família de pequenos agricultores, muitas vezes teve que fazer trabalhos pesados na ausência de braços masculinos. Recordou inclusive que, quando conheceu seu futuro marido, ele se espantou com os bíceps levemente desenhados da jovem Irene. O homem até zombou do discreto delineamento muscular da mulher, insinuando que talvez ela fosse lésbica. A moça ficou desesperada com a ideia de que pudesse ter algum traço masculino. E tratou de evitar, tanto quanto pôde, as atividades que lhe dessem músculos.
        No fundo, seu maior temor era não se casar. Sentia-se muito bem percebendo que era capaz de erguer, puxar, carregar, torcer e empurrar com a potência de qualquer homem de sua idade. Mais que isso. Ela se sentia poderosa. Muitas vezes Irene se percebeu imaginando uma situação inversa, isto é, em que a iniciativa partiria dela – e não dos homens. Em suas fantasias, chegou a se ver subjugando seu namorado, impondo-se a ele, ameaçando espancá-lo se ele não a obedecesse. Algo impensável na cultura machista em que foi educada. O que a levou a se confessar ao padre, certa de que havia pecado gravemente com tais pensamentos. O sacerdote a repreendeu com veemência, ameaçando-a com o fogo do Inferno e com a solidão da solteirice. Irene se reprimiu, temendo mais a solidão. E ela acabou se casando já um tanto roliça e bastante servil. Os anos que se seguiram apagaram com gordura acumulada a promessa de uma musculatura definida. Quando, agora viúva e com um bom dinheiro inesperadamente herdado, dona Irene constatou isso, brotou em seu rosto um sorriso estranho. "Por que não?", perguntou ela, baixinho. E digitou no Google as palavras que a levaram aos sites onde encontrou o necessário para realizar o desejo agora reanimado: tornar-se uma mulher fisicamente forte.
        Não foi  fácil. Ela mesma resistiu à ideia que lhe parecia ao mesmo tempo estranha e fascinante. Mas notou que seu repentino interesse pelo fitness não causou espanto. Pelo contrário, seu filho até a incentivou, mas esperando que, com isso, sua mãe não lhe desse muito trabalho na velhice. Assim, nos primeiros meses, dona Irene tratou de corrigir a alimentação e o tempo de sono, o que bastou para que ela perdesse alguns quilos em poucas semanas. Além disso, matriculou-se na mesma academia frequentada pelo filho. E iniciou exercícios leves, "próprios para uma mulher da sua idade" – como anunciou o treinador. Surpreendentemente, porém, dona Irene respondeu rápido às atividades físicas. E, em menos de seis meses, ela alcançara progressos notáveis que a encheram de elogios, entusiasmo e autoconfiança. Foi apenas o começo.
Depois de mais um tempo de hesitação, dona Irene pediu ao instrutor que ele intensificasse os treinos e aumentasse o peso das cargas. O pedido foi recebido com descrédito, mas o treinador resolveu testar até onde aquela senhora poderia ir em seu pretensioso propósito. Ele estava certo de que ela não suportaria sequer uma semana com a nova rotina de exercícios. Para sua surpresa, porém, dona Irene não só se manteve firme como, no final do mês, pediu mais: mais peso, mais intensidade, mais tempo de treino. Em toda sua carreira profissional, o treinador nunca vira algo parecido. E começou a desconfiar de que aquela mulher estava usando algum medicamento ou droga.
Na verdade, não. Era pura disciplina. E uma vontade férrea de se tornar forte, como agora dona Irene admitia inclusive explicitamente. "Você acha que posso me tornar mais forte que você?", perguntou ela a Marcos, o treinador. Ele era um homem de 35 anos, alto, de cabelos raspados, barba densa e dentes muito brancos que contrastavam com sua pele sensualmente morena. Rosto másculo, mas atraente, com belo par de sedutores olhos castanhos bem escuros. Ex-lutador de MMA, formara-se em educação física e abrira a academia depois de perceber que não alcançaria o estrelato internacional de outros brasileiros nesse esporte. Ao ouvir a pergunta da aluna madura e obstinada, Marcos sorriu, incrédulo. "Claro que não, dona Irene", respondeu, compassivamente. "Isso é impossível. Veja: tenho uma massa muscular muito maior que a da senhora. E eu sou homem. Homem sempre é mais forte que a mulher." Dona Irene apenas sorriu de volta, mas tomou aquelas palavras como um desafio. "Vou lhe mostrar, rapaz", pensou ela.
        Os meses se passaram e os progressos de dona Irene na musculação começaram a chamar a atenção. Ao mesmo tempo, Marcos passou a se preocupar, temendo que o desempenho da senhora resultasse em alguma lesão ou doença grave pela qual ele viesse a ser responsabilizado. Na academia, ela já superara as marcas da maioria de seus frequentadores masculinos mais jovens. O próprio Marcos, no auge de sua potência muscular – que mantinha com contínuos exercícios e dieta rigorosa –, encontrava em dona Irene a única capaz de competir com ele no supino. No último encontro que teve com o filho da mulher, antes que este embarcasse para os Estados Unidos, revelou sua preocupação. E resolveu tomar uma decisão drástica.
– Sua mãe estava evoluindo muito bem, Rodrigo – começou Marcos. – Ela perdeu peso rapidamente, eliminou as dores nos joelhos e nas costas e recuperou a elasticidade. Mas acho que aquilo que era só para manter a saúde está virando uma obsessão doentia. Ela passa quatro horas por dia aqui na academia, de segunda a sábado. Não falta um dia sequer. Nunca vi isso, ainda mais numa senhora com quase 60 anos. Acho que você deveria mandá-la a um psiquiatra. O que ela está fazendo não é normal.
– Bom, pelo menos ela está ocupando o tempo – retrucou Rodrigo, um tanto impaciente. – Não vejo problema nenhum, se ela está gostando.
– Mas é excessivo. Isso pode fazer mal a ela...
– Olha, Marcos, depois de amanhã eu embarco para os Estados Unidos. A única coisa que eu não quero é criar problema, principalmente com a minha mãe. Se ela não está fazendo mal a ninguém e até está beneficiando a própria saúde, deixa como está. Além do mais, a velha até que está ficando gostosa, não acha? – E piscou para o instrutor, enquanto lhe dava um leve tapa no ombro como despedida.
Marcos, porém, não queria arriscar seu empreendimento. Na semana seguinte, com Rodrigo já nos Estados Unidos, interpelou dona Irene logo que ela encerrou os exercícios, após levantar quinze vezes halteres de 40 quilos em cada braço:
– Dona Irene, gostaria de ser bem direto e franco com a senhora...
– Oh, Marcos, não se preocupe... Semana que vem passo a levantar os halteres de 50 quilos...
– Não é isso, dona Irene... Quer dizer, é exatamente isso! A senhora vem aumentando as cargas num volume incompatível com sua idade e...
– Mas qual o problema? Não estou sentindo dores. Pelo contrário, agora é que elas desapareceram. E consigo dar conta de cargas cada vez mais pesadas...
– Dona Irene, isso não é normal! Nem gente mais jovem consegue fazer o que a senhora faz aqui. Ninguém passa quatro horas por dia dentro de uma academia, a não ser que seja um atleta.  Deve haver alguma coisa errada...
– Como assim, "errada"?
– Olha, eu não tenho nada a ver com a sua vida particular. E nem quero saber se a senhora está usando alguma droga ou não, mas o fato é que não quero ser responsabilizado por algum dano à sua saúde...
– Como é que é?! Eu não uso nenhuma droga, pago a mensalidade da academia religiosamente, faço todos os exercícios corretamente e você vem com essa conversa?! Ninguém manda em mim! Eu faço o que quiser!
A própria dona Irene estranhou o tom impositivo de sua fala. Estranhou, mas gostou também. Alçando seu peito agora rijo e delineado, aproximou-se mais de Marcos, olhando bem dentro de seus lindos olhos castanhos, e sentenciou:
– Está com medo de que eu me torne mais forte que você, Marcos? Acha que não percebi que já carrego o mesmo que você no supino?
O treinador empertigou o corpo atlético, indignado com a repentina insolência da senhora, e devolveu:
– O que a senhora está dizendo é completamente ridículo! Eu tenho um negócio e uma reputação para zelar. Não vou deixar que a minha academia vire notícia com alguma ruptura de tendão ou lesão grave provocada pela irresponsabilidade da senhora... A senhora me faça o favor de não voltar mais aqui! Vou lhe devolver o restante da mensalidade e não ponha mais os pés na minha academia!
Dona Irene o fuzilou com o olhar, durante alguns segundos. E disse apenas:
– Você vai se arrepender.
* * *
        Depois que Rodrigo se despediu, com um abraço frio no aeroporto, dona Irene voltou para casa o mais rapidamente possível. Ainda naquela manhã ela havia recebido as últimas caixas contendo os novos aparelhos que comprou para a pequena academia que estava montando em casa. Seu filho usava a edícula como espaço para se exercitar quando não conseguia ir à academia. E venderia os equipamentos antes de viajar. Mas dona Irene os comprou. E os manteve ali, agora ampliando os recursos que ela mesma foi instalando. Não era só a força física que a solitária viúva vinha conquistando. Era também a capacidade de decidir e agir conforme seus desejos. Assim, agora que tinha dinheiro, reformou a edícula (no fundo do diminuto quintal) e a transformou numa pequena e bem equipada academia de musculação. Inclusive revestiu o chão e também (estranhamente, diria um observador atento e desconfiado) as paredes.
        Suas pesquisas na internet, que só não ocupavam mais tempo que os próprios exercícios, permitiram que ela se emancipasse de qualquer academia. De modo que, quando Marcos a expulsou, dona Irene já estava com seu ginásio privado quase montando – embora ela planejasse usá-lo somente aos domingos e à noite, em exercícios suplementares. A expulsão apenas a estimulou. Assim, tão logo chegou do aeroporto, dona Irene foi contemplar sua academia. Os velhos halteres, colchonetes, barras e anilhas do filho se juntaram a reluzentes peças novas, como power racks para pullups e dips, cadeiras extensora e flexora, cinto de pesos, máquina de remo, bicicleta e esteira ergométricas, mesa flexora e todos os aparelhos para leg horizontal, calf extension, pulley, supino e desenvolvimento dos deltóides, bíceps e tríceps. Num canto, ela instalou um espelho. Vendo-se refletida nele, observou sua figura por alguns minutos.
        Vestida com a sobriedade e a modéstia de sempre, aparentemente nada havia de especial naquela mulher próxima dos 60 anos, com a boca pintada com discreto batom, os cabelos tingidos e curtos, o par de brincos ainda mais discretos (que herdara da mãe), os olhos esverdeados e a pele clara, marcada por rugas que denunciavam sua idade. Com pouco mais de um metro e sessenta de altura, esbelta e ereta, dona Irene passaria despercebida como mais uma entre milhões de outras mulheres de sua idade e classe social, perdida no anonimato de uma megalópole sul-americana. Com o vestido barato e sem sex appeal que lhe cobria os braços até os cotovelos e as pernas até os joelhos, dona Irene se via no espelho como "uma mulher comum" – pensou. "Uma mulher comum?", perguntou, agora em voz alta. E sorriu sardonicamente.
        Aproximando-se do espelho, começou a desabotoar o vestido aos poucos. Sobre o sutiã que agora se revelava, ela apalpou os seios pequenos, mas ainda firmes. Suas mãos desceram um pouco mais e revelaram o abdômen, seu maior orgulho: estavam visivelmente delineados, divididos em seis "gomos" de músculos, o que conferia ao seu torso uma sensualidade que ela nunca vira. A grossa camada de gordura desaparecera. Nenhuma flacidez. Se não fossem as marcas da pele denunciando seu tempo de vida, aquele abdômen poderia ser de uma jovem ginasta olímpica. Dona Irene sorriu, satisfeita, e terminou de desabotoar o vestido, desnudando suas coxas, o conjunto mais poderoso de sua musculatura. Ela se lembrou do sofrimento, sobretudo nos primeiros meses, empurrando no leg press cargas cada vez mais pesadas, num esforço que provocava dores lancinantes naquele corpo há décadas sedentário. Mas valeu a pena o sofrimento, concluiu ela, admirando aqueles músculos duros como aço, e torcendo as pernas para apreciar as panturrilhas tonificadas. O grand finale, porém, ela usufruiu demoradamente. Livrando-se do vestido, dona Irene flexionou os bíceps e teve um imenso prazer ao senti-los, duros e potentes, se destacando em seus braços. Ainda de um modo um tanto desajeitado, ela treinou poses típicas dos campeonatos de fisiculturismo.
* * *
   Nos meses que se seguiram, agora sem os constrangimentos da academia, dona Irene estudou e aplicou tudo o que aprendeu em suas incursões por sites especializados. Com isso, descobriu-se muito mais inteligente do que supunha – ou que os homens, sobretudo, a faziam acreditar. Aprendeu a equilibrar a alimentação e os exercícios, os períodos de repouso, as cargas que levantava, empurrava e puxava. Principalmente soube ter paciência. Porque não se tratava apenas de ficar em forma, e nem mesmo de se tornar a mulher fisicamente potente que estava esculpindo na academia de Marcos. Agora que dona Irene controlava totalmente seu desenvolvimento, suas ambições tornaram-se maiores. Com uma disciplina de fazer inveja a qualquer militar, a senhora de cinquenta e tantos anos estava construindo um corpo forte que a satisfaria sexualmente. Mas de um modo heterodoxo.
   Reprimida durante décadas, dona Irene agora escolheria os homens que lhe dariam o prazer que ela buscava. Um prazer que rapidamente encontrou em suas andanças pela internet. Além de dietas e exercícios, a viúva tornou-se consumidora voraz de sites de wrestling (em que as mulheres dominam os homens) e de vídeos eróticos de mulheres musculosas (simulando lutas mistas ou sendo adoradas por machos submissos). E, muito rápido, passou a competir consigo mesma em campeonatos solitários de orgasmo –  que raramente teve com o marido –, entregando-se a longas sessões de masturbação. Seu guarda-roupa cedeu metade do espaço a um arsenal impressionante de instrumentos e produtos eróticos que potencializassem seu prazer: pênis de borracha, vibradores, bolinhas para pompoarismo, plug anal, candy, finger sleeve vibe, gel excitante para o clitóris e outros estimuladores clitorianos... Em sua pequena academia privada, treinava nua, admirando-se e se excitando com a própria imagem refletida no espelho. Muitas vezes se masturbava enquanto exercitava os bíceps com os halteres. Mas, a partir de certa altura, algo começou a faltar.
   Depois de um ano de intensa musculação em casa e extasiante prazer solitário, dando vazão às mais inusitadas fantasias e explorando zonas erógenas até então desconhecidas, dona Irene queria mais. Ou melhor, queria o que sempre quis: dominar um homem não apenas na imaginação. E não qualquer homem, mas aquele que ela desejasse. Um macho derrotado pela força física dela. Que fosse subjugado pela potência muscular dela. Que sentisse em seu corpo o poder da musculatura titânica dela. Que sucumbisse a ela. Que a servisse como os brinquedos eróticos a serviam. Quando essa ideia fulgurou pela primeira vez em sua mente, dona Irene provocou um estrondo ao soltar os dois alteres com os quais exercitava seus cada vez mais poderosos bíceps. E iniciou sua mais longa sessão masturbatória, que adentrou a noite, em sucessivos orgasmos obtidos nas posições mais impensáveis, graças ao tônus e à flexibilidade do seu poderoso corpo.
   Porém, para subjugar o homem que ela desejava (jovem, forte, atlético), dona Irene não pensava em impor sua potência muscular abruptamente. Não. Em suas fantasias masturbatórias ela demonstrava sua superioridade física sob todos os aspectos. Não só demonstrava, como também experimentava, no corpo do homem que a excitava, as habilidades que adquirira além da musculação. Demoradamente. Com muita técnica. Prolongando o prazer, como aprendera a fazer com seus brinquedos eróticos. Foi por isso que, além de levantar pesos e esculpir sua musculatura, dona Irene decidiu aprender a lutar. Tornou-se então consumidora voraz de filmes de artes marciais protagonizados por mulheres, sobretudo Cynthia Rothrock (embora as coreografias marciais da atriz lhe parecessem comicamente irreais). Sabia de cor as cenas de combate corpo a corpo de todas as versões de As panteras (The Charlie's Angels). E se masturbava com frequência vendo a Mulher Gato derrotar Batman. Ao contrário da musculação, contudo, aprender alguma ou várias modalidades de luta não era algo que pudesse fazer solitariamente. Boxe e caratê ela até poderia treinar sozinha, ainda que mal. Mas dona Irene achava pouco. Assim como ela se tornara um feixe de músculos com dieta, repouso e muito peso levantado, a madura senhora pretendia tornar-se temida no tatame e no ringue. Kickboxing, taekwondo, hapkido, aikido, judô, jiujitsu, muay thai, capoeira... Sua força física deixaria o confinamento solitário dos aparelhos de musculação e finalmente se imporia aos homens em lutas reais, com corpos masculinos feitos de carne e osso – e não de pixels em telas.
   É por isso que, ao cumprir com calma o rito de fechar a casa no fim do dia, dona Irene não estava exatamente sozinha.
* * *
   Apesar de nunca ter chegado ao UFC, como era seu desejo, Marcos jamais deixou de ser um atleta. Afinal, era dono de uma academia de musculação, que oferecia também várias modalidades de luta ou artes marciais. Como um dos professores, era preciso se manter em forma e treinar como se preparasse para um campeonato, mesmo que não disputasse nenhum há cinco anos. Por isso, com o sol nascendo, Marcos corria cerca de seis quilômetros, usando como pista a longa rua onde instalara seu ginásio. Ela terminava numa subida íngreme, que ele adorava subir para acelerar e intensificar seu exercício cardiovascular. Era uma rua tranquila, repleta de sobrados geminados, com antigos jardins transformados em garagens, típicos dos bairros paulistanos da baixa classe média. Naquela manhã de inverno tropical, Marcos começou a correr quando ainda estava escuro. Apesar do frio, trajava um short preto curto e aberto nos lados, que facilitava os movimentos de suas pernas longas e de suas coxas musculosas. Usava uma blusa de moletom de mangas compridas, mas com o capuz abaixado. Sabia muito bem o risco que sua barba densa e escura, a cabeça raspada e o tom moreno da pele poderiam representar para ele, num país onde qualquer homem com essas características é frequentemente "confundido" com bandidos pela polícia.
   Depois de demorado alongamento, Marcos disparou pela rua deserta, feliz com o vigor que sentia em suas longas passadas e na potência de seus pulmões, inspirando e expirando, sob o frio daquele rotineiro fim de madrugada invernal. É claro que ele não fazia a menor ideia de que estava sendo observado. Do andar superior de seu sobrado, dona Irene viu Marcos passar rapidamente rumo ao morro onde a rua terminava. Acompanhando há dias a rotina de seu antigo treinador, ela sabia que em vinte minutos ele estaria de volta, soprando o ar num quase assovio e suando profusamente. Então ela desceu e foi para a frente de sua casa. As telhas de amianto cobrindo o antigo jardim foram desmontadas pelos braços vigorosos de dona Irene. E aquilo que durante décadas fora improvisado como garagem, escurecendo a sala de visitas, voltara a ser um pequeno e bem cuidado jardim.
   Assim que avistou Marcos, dona Irene se endireitou em suas folgadas blusa e calça de moletom, com o capuz erguido, deixando apenas o rosto de fora. Como se estivesse prestes a sair, abrindo o portão, ela exclamou, afetando surpresa:
   – Oi, Marcos! Bom dia! Que coincidência! Eu queria mesmo falar com você...
   – Bom dia, dona Irene! – Havia um tom de sincera satisfação na voz do ex-lutador. Desde que expulsara dona Irene de sua academia, ele nunca mais falara com ela, e nem sequer a vira. No fundo, sentia-se culpado pela violência daquela constrangedora situação, embora estivesse mais preocupado com a reputação de seu negócio. A cinquentona até parecia ter engordado, certamente por ter reduzido a voracidade com que aderira ao fitness. Mas vê-la assim, disposta a conversar, deixou Marcos muito contente. – Claro! Vamos conversar... A que horas a senhora pode?
   – Agora, se você não se importa.
   – Mas a senhora não está de saída?
   – É, eu também corro aqui, de manhã, mais... – e dona Irene se interrompeu, pois ia dizer: "mais que o dobro do seu percurso". – Mas posso deixar para mais tarde um pouco. O importante agora é conversar com você. Não quer entrar e tomar um café?
   Marcos hesitou durante longos trinta segundos, mastigando as palavras até que conseguiu dizer:
   – Não dá, dona Irene. Preciso abrir a academia daqui a vinte minutos...
   – Mas vou ser bem rápida, Marcos! É importante, mas é rápido. E aí você já toma o seu desjejum. Minha mesa da manhã é perfeita para um atleta como você.
   Ainda hesitante, Marcos viu o pequeno portão de grade se abrir e dona Irene tocar seu braço, impelindo-o a entrar. Relutante, ele deu passos incertos atravessando o minúsculo e florido jardim com a viúva logo atrás repetindo: "Entra, entra, não vai demorar nada".
   Na cozinha limpa e simples, a mesa com quatro lugares estava impecavelmente posta com o que havia de mais saudável para uma primeira refeição do dia. Porém, Marcos estranhou as duas xícaras, evidenciando que dona Irene já estava preparada para recebê-lo. Suas sobrancelhas se contraíram em indisfarçável ar de desconfiança. Dona Irene, entretanto, foi ágil, servindo rapidamente o café e estendendo a xícara para o visitante, sem parar de falar:
   – Sei que está com pressa, Marcos... Então vou logo ao assunto. Olha, eu quero te pedir perdão...
   – O que é isso, dona Irene! Imagine! Eu é que tenho que lhe pedir desculpas...
   – Não, não, não, você tinha razão. Eu estava exagerando e aquilo acabaria me fazendo mal. Você foi profissional, responsável. Eu é que parecia uma adolescente. Imagine! Eu queria ter o corpo de uma atleta... Uma velha como eu...
   Marcos descontraiu a mandíbula e sorveu o café, aliviado. A velha queria apenas lhe pedir desculpas, e com certeza estava ensaiando isso há dias. Uma ponta de pena espetou seu coração. Ele até se permitiu um discreto sorriso, enquanto dona Irene lhe oferecia o indefectível pão de queijo:
   – Não pode faltar nem na mesa de atleta, não é mesmo?
   E seguiu falando, enquanto Marcos sorvia o café, cujo sabor lhe pareceu um tanto inusitado. Ela lembrou do filho agora nos EUA, do marido subitamente morto, dos tempos difíceis que passaram naquela casa, depois a descoberta da musculação... O treinador continuou atento à fala da mulher, mas alguma coisa estranha acontecia. Ele estava se esforçando cada vez mais para entender o que ela dizia. Aquela tagarelice lhe soava progressivamente sem sentido. E a imagem de dona Irene ia se distorcendo, embaçada, como se estivesse fora de foco. Algumas palavras saltavam isoladas, desconexas: "músculos", "levantamento", "halteres", "repetições", "bíceps", "força"... "O que essa mulher está dizendo?", pensou. Marcos forçou a vista. Não adiantou. Tentou dizer algo, mas sua boca parecia cheia de uma pasta leitosa. Então ele procurou se levantar, notando seus movimentos em câmera lenta. Sua última sensação foi a da queda, junto com o som da xícara se estilhaçando no chão de cerâmica, não muito longe de seus ouvidos.
* * *
   Primeiro foi uma mancha azul. Depois, ela foi se tornando nítida até se configurar como o piso emborrachado típico das academias de musculação. Por uma fração de segundo, Marcos acreditou estar acordando dentro de seu ginásio, estranhamente com a cabeça pendida para o chão. Mas logo ele sentiu a pressão de amarras contra seu corpo todo e a boca tapada por uma dessas mordaças típicas de sessões de sadomasoquismo. Então começou a grunhir, abafado pela mordaça erótica, esbugalhando os olhos numa expressão ao mesmo tempo de horror e de raiva, enquanto se esforçava para se livrar das cordas. À sua frente, de pé, estava dona Irene, vestida com seu conjunto de moletom cinza e mantendo as mãos descansadas dentro dos bolsos. Foi nesse momento que, envergonhado, o atlético ex-lutador se percebeu inteiramente nu.
   – Pode gritar à vontade. Ninguém vai ouvir seus grunhidos. E, mesmo que alguém te ouça, vai pensar que sou eu, gemendo nos aparelhos de musculação. Mas pode ver que eu revesti as paredes. Então é bom ir se acalmando.
   Por mais que se esforçasse, Marcos não conseguia se movimentar. Seu corpo inteiro estava muito bem amarrado à cadeira, com as pernas semi-abertas. Logo notou que sob suas nádegas havia um orifício, o que aumentou seu pânico e a respiração sôfrega. Dona Irene esperou calmamente durante longos minutos, até que Marcos parasse de se debater e de grunhir, desesperado.
   – Pronto? Já entendeu que não tem como escapar? Percebeu que não consegue gritar, nem falar? – Longa pausa, enquanto Marcos diminuía sua inútil tentativa de se libertar, até que cessou. – Bom menino! – O treinador teve novo acesso de movimentos desesperados e grunhidos aterrorizados. – Não tenho pressa, Marcos. Posso esperar você se cansar – disse dona Irene, com um sorriso condescendente. O ex-lutador parou. Ela retomou o discurso. – Bom, vou te explicar o que está acontecendo. Agora você é meu. – Novo acesso do treinador. A mulher pegou um pequeno banco num canto, colocou-o diante de Marcos, sentou-se e calmamente cruzou as pernas. Permaneceu assim durante cerca de quinze minutos, encarando o homem à sua frente, agora com os olhos encharcados de lágrimas. Até que ele sossegou. – Então, como eu estava lhe dizendo, agora você é meu. Isso mesmo que você ouviu: meu. Vai levar tempo e vai doer um bocado, mas você aprenderá a ser meu. Estou me preparando para isso há quatro anos, Marcos, desde que saí de sua academia. Você não faz ideia do que eu aprendi nesse tempo todo, nem do que eu sou capaz de fazer. Quem me vê assim, com este moletom folgado e o cabelo tingido, pensa que sou apenas mais uma velha viúva, solitária e inútil, esperando a morte, abandonada num asilo. Felizmente acordei a tempo. E me transformei no que sou agora. – Dona Irene ergueu-se, afastou o banquinho com o calcanhar e lentamente abriu o zíper do casaco. Marcos arregalou os olhos quando a peça caiu no chão: a mulher não engordara, mas duplicara sua massa muscular. Seu torso, coberto apenas por um top esportivo, estava tão definido quanto o dele. – E aqui não tem nada de esteróides ou anabolizantes. Só dieta, repouso e muito, muito peso levantado, todos os dias, religiosamente. – E flexionou os bíceps. – Está vendo isto? Duro como uma rocha!
   Marcos permanecia inerte, estarrecido. Nunca vira algo sequer próximo disso, desde que começara a frequentar o mundo dos esportes, ainda na pré-adolescência. Conhecera muitas lutadoras de MMA, sólidas como aço, e com um shape de fazer inveja a vários atletas masculinos. E uma de suas alunas estava se preparando para o  campeonato nacional de fisiculturismo feminino. Mas eram mulheres bem mais jovens, que respondiam rapidamente à dieta e aos treinos, focadas em competição. Dona Irene tinha quase 60 anos, e em quatro anos construíra uma musculatura de competidora.
   – Não estou me preparando para competir, Marcos – disse ela, como se lesse os pensamentos de seu antigo treinador. – Quer dizer, não em campeonatos de fisiculturismo. Quero competir com os homens que eu escolher. E você foi o primeiro.
   Apesar da mordaça, Marcos sorriu e até distensionou o corpo, como se sentisse alívio ao compreender um reles mal entendido. Se pudesse falar, diria que competir com ele era um completo desatino, que só acentuava a certeza de que aquela mulher enlouquecera. Por mais musculosa que fosse, dona Irene jamais poderia competir com um experimentado lutador como ele – um homem de 35 anos, com seu um metro e noventa e dois centímetros de altura,  noventa e cinco quilos, no auge de seu vigor, famoso pela potência dos socos e hábil no jiu-jitsu brasileiro.
   – Sei o que está pensando, Marcos. Vocês homens são todos iguais. Não é preciso ser adivinha para saber o que pensam. – E aproximando seu rosto do dele: – Como lhe disse, você não faz ideia do que sou capaz. Pense bem: como acha que veio parar aqui, nesta situação? Claro, tive que sedar você. Sim, no café que tomou. Sentiu um gosto meio estranho, não foi? Bem, fiz um pouco de alongamento e comecei minha rotina diária de levantamento de peso: ergui você e o carreguei como um saco de batatas. Sim, dona Irene, a velha louca de 58 anos que você expulsou da sua academia, não teve dificuldade de colocá-lo nessa cadeira, onde você está muito bem amarrado. Eu já poderia ter quebrado você, Marcos. Mas eu o quero inteiro. Bem inteiro. Porque vou ensiná-lo a ser meu. E você me ensinará a lutar.
   O treinador já havia desistido de resistir. As cordas eram firmes, e quanto mais se movia, mais elas pareciam apertá-lo. Enquanto a mulher falava, ele tentava pensar em maneiras de escapar, ao mesmo tempo que se horrorizava com aquela história absurda. A luta o ensinou a manter a cabeça fria. Foi a postura que adotou depois de se ver incapacitado de reagir.
   – Bom, sei que não adianta falar – prosseguiu dona Irene. – Você entenderá na prática, aos poucos. Vai doer. Não diga que não avisei. – E apertou os testículos de Marcos.
* * *
   O sol parecia alto. Que horas seriam? Há quanto tempo estava preso ali? Agora sozinho, com os testículos ainda latejando, o ex-lutador tinha certeza de que logo dariam por sua falta. Era impossível ninguém notar seu sumiço! Solteiro, vivia com os pais e tinha uma namorada – aliás, faixa-preta em caratê. A academia certamente estava aberta, mas seus cinco funcionários estranhariam encontrá-la fechada. Nenhuma mensagem no WhatsApp explicando o sumiço. Com certeza seus pais, amigos, alunos, a namorada e a polícia começariam a revirar o bairro em poucas horas. Em breve, seu desaparecimento ganharia destaque nos programas vespertinos sensacionalistas da TV. Marcos tentou repassar friamente o que aconteceu: a corrida matinal, o estranho convite de dona Irene, o pedido de desculpas, o café, o desmaio... e ei-lo atado a uma cadeira por uma mulher enlouquecida, com um discurso doentio de superioridade física e aprendizado de luta. Estava certa de que agora ele era como que um pertence, um escravo dela! Essa ideia fez passar um choque de indignação por seu corpo. Sabia vagamente que os gringos cultivavam uma tal "supremacia branca", e já ouvira falar sobre uma certa Ku Klux Klan, que nem existe no Brasil... Será que dona Irene seria adepta de alguma dessas maluquices? Marcos nunca foi um militante anti-racista, mas sua condição de mestiço num país com longo passado escravocrata e racismo dissimulado deixava-o furioso com qualquer lembrança da escravidão e principalmente com o menor sinal de discriminação racial. Mas combatia sozinho, ao seu jeito, sem aderir a movimentos identitários ou a partidos de esquerda – que, aliás, repudiava. Via seu empenho e o paulatino sucesso empresarial como a melhor forma de se afirmar socialmente, negando a exclusão de negros e de pardos como ele. Acreditava que, com esforço e muito trabalho, romperia todas as barreiras sociais. Era ambicioso. Pretendia implantar respeitada rede de academias, expandindo-a pelo Brasil... Na verdade, essas digressões eram um modo de Marcos suportar a dor declinante, mas humilhante, e o absurdo daquela situação. A tensão logo voltou, entretanto, quando dona Irene irrompeu na edícula carregando uma bandeja.
   – Hora do almoço, campeão – anunciou ela. – Como estamos apenas começando, você terá que engolir essa papa como um bebê. Na mordaça tem um buraco. É por ele que a comida vai entrar. Fique tranquilo. É bastante nutritiva. Legumes batidos com caldo de carne. Bem temperadinho...
   Marcos recuou a cabeça quando a mulher, sentada diante dele, tentou introduzir uma sonda no orifício no centro da esfera que enchia a boca de seu antigo treinador. Dona Irene apenas acariciou os testículos do homem, que fez uma expressão de pânico. "Bom, você já entendeu, não é? Comporte-se como um bom menino e tudo vai correr bem." Pouco depois, lá estava ele, engolindo cerca de um litro de papa de legumes, como se fosse uma criança sem dentes, após de engasgar algumas vezes.
   –  Agora vou lhe explicar mais algumas coisas. Você não pode ficar o tempo todo amarrado assim. Mas não pense que vou te soltar. Não agora. Aos poucos você ganhará mais movimentos porque quero que se exercite. E que depois me ensine a lutar. – Marcos grunhiu franzindo a testa, numa expressão ao mesmo tempo de horror e indignação. – Calma! Tudo a seu tempo – prosseguiu a mulher. – Sem pressa. E sei também que não acredita em mim, apesar de tudo que está acontecendo. Com o tempo aprenderá a me levar a sério.
   Dona Irene levantou-se e esperou Marcos desmaiar novamente.
* * *
   Enquanto seu prisioneiro dormia com a cabeça desabada sobre o peito, dona Irene entregou-se a uma série de levantamento de pesos, que sempre a excitava por fazê-la sentir sua força física em cada músculo que trabalhava disciplinadamente. Nos últimos anos, essas sessões terminavam numa invariável e demorada ginástica masturbatória. Pela primeira vez, porém, a atlética senhora não precisava imaginar os musculosos garanhões que ela submetia em suas fantasias: agora ela possuía o seu, bem ali, desfalecido, vergado numa cadeira, com seu deslumbrante corpo nu, só para ela. Mas não pôde demorar na contemplação. Antes que o efeito do medicamento passasse, tinha que prender os pulsos e tornozelos do ex-lutador em correntes fixadas na parede. Dona Irene abafou o grito do orgasmo que acabara de atingir e, nua, rapidamente desamarrou Marcos, erguendo-o em seus ombros. O homem gemeu. A cinquentona o colocou suavemente contra a parede e atou as algemas de couro nas extremidades daquele belo corpo de atleta pelo qual ela acabara de se masturbar. "Bom menino", sussurrou, apertando seu corpo musculoso contra o dele.
   Dez minutos se passaram – e Marcos começou a recobrar a consciência, enquanto ela o pressionava contra a parede, friccionando suavemente o clitóris contra o rígido quadríceps esquerdo do ex-atleta de MMA. De repente, a campainha tocou, interrompendo os arrepios de crescente prazer de dona Irene. Ela hesitou. Deveria trocar um orgasmo por um dispensável vendedor ambulante de água sanitária? A campainha soou novamente. E, com ela, a sensatez. Aquela impaciência só poderia ser de alguém já em busca de Marcos. Ela deixou-o desmoronar sobre os joelhos, com os braços suspensos pelas correntes, apanhou o longo e felpudo roupão e saiu ao som da terceira chamada.
   – Já vai! Já vai! – gritou ela, vestindo a peça, enquanto caminhava até a porta.
Atrás do portão do jardim, uma bela moça branca de cabelos castanhos claros, roupas esportivas e porte ereto olhava, nervosa, para dentro da casa.
   – Oi! Boa tarde! A senhora poderia me dar uma informação, por favor?
   – Boa tarde! Sim, pois não – respondeu dona Irene, com a porta entreaberta.
   – A senhora conhece o Marcos Galdino?
   – Quem?
   – Marcos Galdino, o dono da academia aqui perto.
   – Ah, conheço sim. Eu frequentei a academia dele até uns quatro anos atrás...
   – Pois é, ele desapareceu...
   – Como é que é?! – Dona Irene abriu a porta, atravessou o pequeno jardim e se aproximou da moça, tocando amistosamente seus braços. – Meu Deus! Como assim, minha filha?
   – Pois é, ele saiu hoje cedo pra correr e não voltou mais.
   – Mas ele não estava com o celular? – perguntou a senhora, ciente de que Marcos não levava o aparelho durante as corridas.
   – Não, o Marcos não corria com o celular. O aparelho está lá na academia.
   – Meu Deus do céu... Mas não tem como ver se ele marcou algum compromisso?... Pode ser que ele esteja numa reunião ou fazendo qualquer coisa assim e esqueceu de avisar.
   – Não, ele não tinha nada programado. Estou passando de porta em porta, aqui na rua, pra saber se alguém o viu hoje. A senhora não o viu?
   – Não, não... Faz tempo que não vejo o Marcos. Não o vejo desde que parei de frequentar a academia. Sabe como é, estou ficando velha, né? Academia é pra gente jovem – disse, deliciando-se com seu abdômen definido propositadamente contraído sob o grosso roupão. – Mas olha, vou ficar de olho, viu? Se eu souber de qualquer coisa, aviso lá na academia.
   – Ah, por favor! Está todo mundo muito preocupado. Marcos não é de sumir assim. A gente já comunicou a polícia, mas a senhora sabe como é... E eu não consigo ficar parada, esperando o tempo passar.
   – Você está certa. Vou rezar para que ele apareça logo, viu? Tenho certeza de que está tudo bem com ele... Ele deve ter esquecido de avisar onde estaria. Logo o Marcos aparece. Fique tranquila. – Dona Irene fez uma expressão de compungida solidariedade. E emendou: – Desculpe-me! Nem perguntei seu nome...
   – Ah, eu é que peço desculpas. Estou tão nervosa que nem me apresentei. Eu sou a Sandra, namorada do Marcos. E a senhora é...?
   – Irene.
* * *
   Quando a viúva voltou à edícula, notou que esquecera a porta aberta, por onde passava o tenso tilintar das correntes e os rosnados de Marcos, agora mais desesperados. Ele ouvira a campainha. Dona Irene se deparou com o homem teso, estendendo as correntes o máximo possível, como que tentando arrancá-las da parede. A mulher excitou-se com a visão daquela atlética musculatura involuntariamente se exibindo para ela com todo vigor.
   – Como você é lindo, Marcos... – suspirou ela, despindo o roupão. – Só não me masturbo agora porque temos muito o que fazer. Então sossegue. Não adianta tentar sair, nem gritar. Vá se conformando. Agora você é meu – e lhe desferiu um soco no estômago. Marcos se contorceu com a força do golpe, mas o choque maior foi pelo inesperado do gesto. Dona Irene desferiu outro, agora na têmpora, abrindo uma fenda em seu supercílio, de onde brotou sangue em profusão. Outro soco, sob a mandíbula. Desabituado com as dores do ringue, o ex-lutador urrava sob a mordaça erótica, por cujo orifício escorria saliva, sangue e a papa que dona Irene lhe enfiou pela goela. Os socos da viúva eram muito potentes.
   – Falta-me técnica, não é mesmo? – presumiu a mulher. – Agora entende por que você está aqui? Quer dizer, é também para isso – e socou o fígado de Marcos. – Tenho treinado boxe sozinha, mas nada se compara a ter um professor como você. Ou a bater em você – completou, sorrindo. Mesmo um corpo atlético como o dele não assimilaria sem sofrimento a força com que dona Irene o espancava. E ela distribuiu socos pelas áreas mais sensíveis do corpo de seu prisioneiro. – Desta vez vou poupar suas bolas – disse, depois de agônicos quinze minutos de intensa pancadaria. Os olhos de Marcos estavam inchados, o rosto ensanguentado, manchas escuras e escoriações pelo corpo, os músculos doloridos. Com alguma dificuldade, ele pôde contemplar seu reflexo no espelho, estrategicamente diante dele, no outro lado do cômodo. – Vá aprendendo quem é que manda aqui – sussurrou dona Irene ao ouvido de seu antigo treinador, agora de joelhos e pendurado pelas algemas. Ela deu dois passos para trás e lançou um chute em seu rosto. Marcos desmaiou.[/font][/size][/color]


MuscleWomanBR

* * *
Ao fim daquele dia, portanto, dona Irene não estava mais sozinha. Depois de verificar se tudo estava bem trancado – e de contemplar a casa com uma vaga melancolia –, ligou a televisão com o volume um tanto alto, para simular para a vizinhança que estava vendo a novela das seis, como tantas outras senhoras brasileiras de sua idade. E sentiu o enrijecimento dos bicos dos seios e o prenúncio de uma ereção clitoriana ao se encaminhar para a edícula. Lá, encontrou Marcos acocorado, com os braços semi-erguidos pelas correntes e as costas repousando contra a parede. Seus pés estavam encharcados de urina, que rescendia pelo ambiente.
A viúva trazia um cobertor de lã, um galão de água mineral e a sonda, que introduziu no orifício da mordaça. E começou a falar de forma quase didática, num tom de cuidado maternal:
– Agora vou lhe dar água. Bastante água. Você precisa se hidratar. Fique tranquilo, pois desta vez não tem tranquilizante. Sei que está morrendo de sede. Seus lábios estão ressecados.
Marcos engoliu com sofreguidão, engasgando e tossindo algumas vezes. O líquido vazava pelos cantos da boca e escorria sobre seu peito ainda respingado de papa. Seus olhos, roxos e inchados, abriam com dificuldade. O rosto sujo de sangue coagulado. A musculatura doía, sentindo os golpes daqueles vigorosos braços que agora sustentavam o pesado galão de água.
– Hoje você vai dormir aí, sobre o próprio mijo, pendurado nessas correntes – sentenciou dona Irene, repentinamente severa. – Porque quero que aprenda. – Ela fez longa pausa, encarando o viril instrutor tão fragilizado e humilhado. E retomou o discurso, mantendo a dureza no olhar. – Sabe, Marcos, até que meu marido morresse, os homens sempre me disseram o que eu era, o que eu podia, o que eu gostava, o que eu tinha que querer. Passei trinta e cinco anos nesta casa cozinhando, lavando e passando pra dois homens que nunca me disseram um "Muito obrigado". E ainda fazia tricô pra ajudar no orçamento. Dois fracos. Meu marido era incapaz de trocar uma lâmpada. Ele desabava naquele sofá pra ver televisão, logo que chegava do trabalho. Não tinha disciplina. Malhava durante uma semana e parava por seis meses. Nem na cama ele prestava. O pau dele não levantava mais. Foi ficando balofo, desleixado, feio. Comia só tranqueira, como um porco. Perdi o tesão por ele há muito tempo. Fiquei louca quando descobri que esse imbecil estava juntando dinheiro sem me dizer nada. Com certeza ia me dar um belo pé na bunda e fugir com alguma biscate de vinte anos! – Dona Irene ergueu-se do banquinho, ajeitando o roupão. – Ah! Mas quando descobri a musculação!... Ela me libertou, entende? Na verdade, sempre fui o que eu sou agora, Marcos. Sempre! Só que não podia ser. No sítio dos meus pais, o trabalho mais duro era meu. Era capaz de fazer com os braços e as mãos o que qualquer outro homem fazia. Até melhor. Isso metia medo. E me dava o maior tesão! Gostava de me sentir forte, de ter muita força sobretudo nos braços, de me imaginar fazendo com os homens o que eles faziam com as mulheres, entende? Tomar a iniciativa, fazer o sujeito sentir que eu posso mais que ele, que macho nenhum me mete medo porque posso tanto quanto qualquer um... Mas tive que me esconder. Ou viraria uma solteirona com fama de sapatão, presa a um pedacinho empoeirado e miserável de terra, lá no interior. Você consegue imaginar o que isso significa no lugar de onde eu vim? – Dona Irene fez uma pausa como se realmente esperasse a resposta. Marcos apenas olhava, em absoluto silêncio. – Nesta casa não foi diferente – prosseguiu, elevando o tom da voz. – Nunca precisei de homem nenhum pra consertar seja o que for! Eu arrastava os móveis sozinha! Eu carregava tudo quanto é pesado! Eu levantava tudo o que aqueles dois inúteis eram incapazes de pegar! Eu mantinha esta casa asseada! Eu pagava a luz, a água, o telefone, a internet que eles usavam pra  bater punheta! Eu cuidava deles quando ficavam doentes! – Nova pausa. Seus olhos brilhavam em fúria. O ex-lutador encolheu o corpo instintivamente, esperando uma tempestade de pancadas. – Quem é o fraco aqui?! – Nova pausa. – E outra coisa: quero prazer! Por que só o homem pode gozar? Eu também posso! Na verdade, eu sabia que podia, mas meu marido era um desastre... – Dona Irene sorriu ironicamente e mirou a genitália de Marcos. – Tinha um pau minúsculo. Nem a metade do teu, que tá mole agora.
A viúva desamarrou e entreabriu o roupão, sob o qual estava nua. Fazia frio, mas esse desconforto não a deteve. Mais uma vez, descortinou-se diante de Marcos um abdômen feminino bem desenhado – visão inédita para ele, no corpo de uma mulher próxima dos 60 anos. Seu peitoral definido quase escondia seus seios. Parecia o torso de um ginasta olímpico. Dona Irene lambeu o indicador demoradamente. Com ele, afastando as coxas torneadas e curvando levemente os joelhos, percorreu o sulco que separava os músculos abdominais até chegar ao alto da vulva. Com a outra mão, pressionou a nuca, vergando o abdômen e acentuando sua definição. Com o dedo anelar e o indicador, abriu os grandes lábios, permitindo que o dedo médio tocasse o clitóris. Seu olhar devorava a figura máscula, atlética e abatida de Marcos. Aos poucos, ela foi aumentando a velocidade dos movimentos, pressionando com os dedos, desenhando alternadamente círculos maiores e menores, às vezes reduzindo, às vezes aumentando a intensidade da fricção, controlando as ondas de prazer que arrepiavam sua pele. Foi assim durante minutos a fio, controlando o clímax. Os movimentos da mão no clitóris tornaram-se, então, progressivamente vigorosos. Seus olhos começaram a revirar, prenunciando o orgasmo. Ela tombou a cabeça para trás e entreabriu a boca, em gemidos cada vez mais fortes. Dona Irene contraiu ainda mais o abdômen e se pôs nas pontas dos pés, exigindo de suas musculosas panturrilhas. Poucos segundos depois, aquela mulher madura e solitária de corpo atlético soltou um longo e impressionante grito orgástico, enquanto por seus dedos escorriam profusamente o fluido liberado pela uretra.
Marcos presenciara, pela primeira vez, aquilo que ele conhecia apenas pelo nome em inglês, em sites pornográficos: squirting. E respondeu à cena com uma não menos impressionante ereção.
* * *

MuscleWomanBR

– Mais uma vez, ele fez o que ela mandou, sofrendo por antecipação a nova tortura que esperava. – Isso! Viu? Assim você pode mijar. Vou botar um balde embaixo. – Antes que ele alterasse a posição, porém, ela agarrou o pênis do sequestrado. Marcos gemeu alto, desesperado, esperando nova sessão de esmagamento de seus testículos. – Calma, garanhão – sussurrou ela com voz morna. – É a hora da ordenha. Vou bater uma punheta bem gostosa nesse pau grande e lindo. Uma punheta que nem a puta mais experiente soube bater em você. – As mãos calejadas pela musculação seguraram a genitália do instrutor, inteiramente exposta no orifício, em movimentos simultâneos de carícia na bolsa escrotal e de estímulo na cabeça do falo, ainda retraído. – Relaxa, Marcos. Vou te ensinar o que é uma punheta bem batida.
Acocorada diante do atlético prisioneiro, encarando-o de baixo para cima com um sorriso malicioso, dona Irene começou com toques leves e suaves, explorando a sensibilidade daquele membro encolhido, mas cuja monumental ereção ela contemplara na noite anterior. Sem pressa, a mulher foi conquistando aos poucos a confiança do sequestrado. Também aos poucos, Marcos foi relaxando e cedendo. Com as mãos bem lubrificadas, que emanavam um aroma balsâmico, ela principiou aplicando suave pressão ao redor da glande e do eixo do pênis. O homem gemeu, e acabou respondendo com a progressiva rigidez do falo. Em seguida, ela passou a experimentar diferentes tipos de estimulação, incluindo carícias, toques circulares, deslizes e apertos mais firmes, mudando o foco da estimulação entre a glande, o eixo e o escroto, multiplicando as sensações que ela ia lendo no rosto do ex-lutador. A principal resposta, porém, estava no pênis, agora rígido como pedra. Dona Irene usava as duas mãos com surpreendente habilidade: a esquerda estimulava o eixo, enquanto a outra acariciava a glande ou massageava o escroto, em mudanças rápidas de técnica, sempre atenta aos gemidos de prazer de Marcos, que, com a respiração acelerada, se viu devorando aquela mulher com um olhar sensual, pedindo que ela prosseguisse, que intensificasse os movimentos, que o levasse ao êxtase. Seus olhos inchados pelo espancamento da véspera não deformavam a expressão de súplica por aquele orgasmo. Um arrepio atravessou seu corpo da nuca às panturrilhas. Ele grunhia algo incompreensível, mastigando a esfera da mordaça, como se tentasse falar em meio aos gemidos de prazer. Mesmo sem entender, Dona Irene compreendeu: Marcos aceitaria qualquer coisa em troca do clímax, anunciado em generosos fluxos de líquido pré-ejaculação. Imediatamente ela largou a genitália e se levantou, sentenciando:
– Você vai gozar quando eu quiser.
O homem urrava, com o pênis ereto como nunca, no limiar do orgasmo, na iminência da ejaculação, experimentando uma associação de sentimentos simultâneos e não menos intensos que a excitação erótica: raiva, terror, frustração, culpa, humilhação... E, ao mesmo, o desejo incontrolável de repetir tudo aquilo.
* * *

MuscleWomanBR

[A POSTAGEM ANTERIOR ESTÁ INCOMPLETA... DESCULPEM-ME!]

* * *
   No dia seguinte, logo cedo, após correr o mesmo percurso que Marcos fazia todas as manhãs, dona Irene adentrou a mini-academia com o desjejum para o ex-atleta. A viúva recendia a banho bem tomado. A fragrância floral do sabonete contrastava com o odor da urina que encharcava os pés do sequestrado. Com o corpo pontuado por hematomas legados pelo espancamento da véspera, mal coberto pela manta de lã numa noite fria e cansado pela previsível insônia provocada por aquela situação, ele lançou um olhar lacrimejante de súplica para a mulher que introduzia a sonda alimentar em sua mordaça.
   – Não é da noite pro dia que você vai aprender a me obedecer, Marcos – disse ela, sem encará-lo, enquanto o treinador engasgava e tossia, babando a papa. – Vai demorar. Você tem muito o que aprender.
Enquanto fazia o homem engolir um litro daquela espécie de sopa, ela lhe lançou um olhar de nojo:
– Você fede. Está sujo de mijo. Que figura! Todo babado, que nem um vovô gagá. Quem diria, hein? O campeão apanhou feio da cinquentona! E se eu botasse umas fotos tuas na internet, neste estado? Já pensou? Fotos com eu te dando um mata-leão com este muque de aço. O que acha? – E riu, flexionando desafiadoramente o braço direito. Em seguida, removeu a manta de lã que mal agasalhava Marcos e anunciou, assumindo o tom maternal que ele já conhecia: – Agora vou te dar um banho, tirar esse sangue seco, tratar essas feridas. Vou te deixar lindão e cheiroso, você vai ver!
Dona Irene deixou a edícula por meia hora, retornando com um balde fumegante e uma parafernália de curativos, toalhas de banho e produtos de higiene pessoal. Com uma esponja bem macia, aquecida na água, foi ensaboando o corpo cansado do ex-lutador, que respondeu com visível prazer, fechando os olhos como se recebesse um amoroso afago. Às suas narinas subia o cheiro agradável e confortante do sabonete. A massagem e a água quente descontraíam seus músculos. Por alguns instantes, até esqueceu o cativeiro e sorriu sob a mordaça. Era a primeira vez que dona Irene tocava seu corpo e podia sentir os contornos e a solidez daquela musculatura tão bem trabalhada, que ela tanto admirava. Se para ele era algo reconfortante – não reagiu nem quando a esponja demorou em suas nádegas e genitália –, para ela era excitante explorar cada centímetro daquele belo e sexy corpo masculino – seu ideal de homem sensual agora todo dela, pensava. Em seguida, a viúva subiu no banquinho e derramou a água quente sobre Marcos, não sem antes passar shampoo em sua cerrada barba negra, modelada no estilo lenhador. Por fim, apanhou duas imensas e felpudas toalhas e passou a secá-lo.
– Comprei especialmente pra você, homem grandão! – Disse a mulher, enquanto o enxugava com cuidado. Marcos sentiu um misto de ternura e repulsa. Em seguida, ela puxou a cadeira em que, na manhã anterior, ele havia sido amarrado. – Agora você descansa, sentado aqui. Tem um buraco bem no meio do assento, tá lembrado? É por ele que você vai mijar e cagar, entendeu? Pus um laxante na sopa. Daqui a algumas horas deve fazer efeito. Então abra bem as pernas. – Marcos obedeceu, desconfiado. Dona Irene passou a cadeira pelo formidável arco de coxas que seu ex-treinador formara, encostando o espaldar na parede, atrás dele. Depois besuntou as mãos com óleo balsâmico. – Jogue a bunda pra trás e enfie o pau no buraco. – Mais uma vez, ele fez o que ela mandou, sofrendo por antecipação a nova tortura que esperava. – Isso! Viu? Assim você pode mijar. Vou botar um balde embaixo. – Antes que ele alterasse a posição, porém, ela agarrou o pênis do sequestrado. Marcos gemeu alto, desesperado, esperando nova sessão de esmagamento de seus testículos. – Calma, garanhão – sussurrou ela com voz morna. – É a hora da ordenha. Vou bater uma punheta bem gostosa nesse pau grande e lindo. Uma punheta que nem a puta mais experiente soube bater em você. – As mãos calejadas pela musculação seguraram a genitália do instrutor, inteiramente exposta no orifício, em movimentos simultâneos de carícia na bolsa escrotal e de estímulo na cabeça do falo, ainda retraído. – Relaxa, Marcos. Vou te ensinar o que é uma punheta bem batida.
Acocorada diante do atlético prisioneiro, encarando-o de baixo para cima com um sorriso malicioso, dona Irene começou com toques leves e suaves, explorando a sensibilidade daquele membro encolhido, mas cuja monumental ereção ela contemplara na noite anterior. Sem pressa, a mulher foi conquistando aos poucos a confiança do sequestrado. Também aos poucos, Marcos foi relaxando e cedendo. Com as mãos bem lubrificadas, que emanavam um aroma balsâmico, ela principiou aplicando suave pressão ao redor da glande e do eixo do pênis. O homem gemeu, e acabou respondendo com a progressiva rigidez do falo. Em seguida, ela passou a experimentar diferentes tipos de estimulação, incluindo carícias, toques circulares, deslizes e apertos mais firmes, mudando o foco da estimulação entre a glande, o eixo e o escroto, multiplicando as sensações que ela ia lendo no rosto do ex-lutador. A principal resposta, porém, estava no pênis, agora rígido como pedra. Dona Irene usava as duas mãos com surpreendente habilidade: a esquerda estimulava o eixo, enquanto a outra acariciava a glande ou massageava o escroto, em mudanças rápidas de técnica, sempre atenta aos gemidos de prazer de Marcos, que, com a respiração acelerada, se viu devorando aquela mulher com um olhar sensual, pedindo que ela prosseguisse, que intensificasse os movimentos, que o levasse ao êxtase. Seus olhos inchados pelo espancamento da véspera não deformavam a expressão de súplica por aquele orgasmo. Um arrepio atravessou seu corpo da nuca às panturrilhas. Ele grunhia algo incompreensível, mastigando a esfera da mordaça, como se tentasse falar em meio aos gemidos de prazer. Mesmo sem entender, Dona Irene compreendeu: Marcos aceitaria qualquer coisa em troca do clímax, anunciado em generosos fluxos de líquido pré-ejaculação. Imediatamente ela largou a genitália e se levantou, sentenciando:
– Você vai gozar quando eu quiser.
O homem urrava, com o pênis ereto como nunca, no limiar do orgasmo, na iminência da ejaculação, experimentando uma associação de sentimentos simultâneos e não menos intensos que a excitação erótica: raiva, terror, frustração, culpa, humilhação... E, ao mesmo, o desejo incontrolável de repetir tudo aquilo.
* * *

MuscleWomanBR

* * *
Mais tarde, dona Irene irrompeu em sua academia doméstica, portando material de limpeza.
– Vamos deixar esta edícula cheirosa? – começou, indiferente ao olhar entre estarrecido e desolado que Marcos lhe lançou. – Preciso treinar muito e não dá pra malhar com isso daqui fedendo a mijo, não é? Aí aproveito e já faço um aquecimento.
O sequestrado observou a mulher. Apesar do frio, ela usava camiseta regata e short esportivo aberto nas laterais. Calçava um confortável e caro par de tênis específico para treino em academia. Seus movimentos eram seguros, firmes, ágeis. Mas o que o impressionou foi sua forma física, que pela primeira vez ele pôde examinar por completo e com tempo. Não era a estrutura muscular de uma "fisiculturista", como a própria dona Irene parecia acreditar ter conquistado. Por um vício da profissão, Marcos distinguia de maneira quase automática os tipos de corpos e o desenvolvimento de suas respectivas musculaturas. O de dona Irene era incrivelmente definido e, ao mesmo tempo, volumoso. Mas não alcançara as proporções exageradas das campeãs peso-pesado de bodybuilding, como provavelmente essa senhora queria. Ela reduzira o percentual de gordura numa escala próxima à das competidoras, e com certeza quase duplicara a massa muscular, conformando uma figura mesomorfa. Isso não significava, porém, que ela se tornara um "monstro" – no linguajar dos aficionados em fitness. Sob a pele bem hidratada e saudável, mas marcada pela maturidade, contraíam-se músculos sólidos e desenhados, que se evidenciavam enquanto ela esfregava, varria, puxava, levantava, carregava com vigor e destreza, movimentando-se de forma disciplinada, consciente de que ao mesmo tempo limpava e se exercitava, inclusive se alongando. A cena tinha um quê de cômica no exagero estudado dos gestos. Marcos, porém, estava atento aos bíceps e tríceps bem pronunciados e aos ombros destacados da mulher, que lhe conferiam uma aparência mais ampla e simétrica – e aquela impressão de força física que esse conjunto provoca em quem o observa. Suas costas também mostravam o trabalho cuidadoso com esse grupo muscular, que saltava sob as alças da regata. Os membros inferiores eram igualmente notáveis: quadríceps, glúteos e panturrilhas definidos e volumosos exibiam-se nas passadas ágeis e nos rápidos agachamentos que a cinquentona fazia pelo cômodo, limpando tudo com a perícia e a obsessão tradicionais das donas de casa brasileiras como ela. Em breve a mini-academia cheirava à limpeza, com a aparelhagem reluzindo. Quando dona Irene encerrou, avaliando o serviço apoiada no cabo do rodo, Marcos percebeu que, mais uma vez, por alguns instantes acabara esquecendo sua condição degradante de cativo convalescente do espancamento que lhe fora infligido por aquele mesmo corpo feminino que, conscientemente ou não, se exibia para ele. Era, sem dúvida, uma mulher atlética, vigorosa, orgulhosa do próprio corpo e ciente de sua potência. Vira casos parecidos apenas na internet, alardeados exatamente porque eram raros. Muitos, em sua avaliação, eram produtos daquilo que ele chamava de "farmacinha" – esteróides anabolizantes, creatina, cafeína, proteína de soja... Marcos não poderia dizer se dona Irene multiplicava os resultados de seus exercícios recorrendo a esse arsenal químico, mas ele nunca vira presencialmente uma mulher da idade de dona Irene com uma musculatura tão forte e tão cuidadosamente definida. A surpresa maior, porém, estava por vir.
Dona Irene saiu com os apetrechos e produtos de limpeza e retornou logo, despindo a camiseta e revelando um top esportivo preto. E os músculos abdominais que ele já conhecia, mas apreciáveis agora sem a tensão e o medo de antes. O abdômen de sua raptora era mesmo impressionante! Marcos reconheceu com precisão, como nas aulas de anatomia que tivera na faculdade, os grupos musculares que, no admirável caso daquele torso, não precisavam de esforço para se destacarem: o do reto abdominal, o dos oblíquos externos, o dos oblíquos internos e o do transverso. Estava ali o modelo perfeito da "barriga de tanquinho", que causaria profunda inveja em seus alunos mais dedicados. Desenhavam-se nela, inclusive, os sulcos verticais que formavam, com impressionante nitidez, as sensuais linhas paralelas em "V" rumo às virilhas. Mas não era essa a surpresa.
Depois de entregar-se meticulosamente à série de exercícios que trabalhou cada conjunto muscular de seu corpo, dona Irene despiu-se com o mesmo cuidado, como se ninguém estivesse ali, dobrando cada peça bem devagar. Marcos ficou horrorizado com a indiferença da mulher e logo passou a temer o que poderia vir a acontecer. A atlética senhora o encarou com o olhar que ele já aprendera a temer. Com impressionante habilidade, num pequeno e repentino salto, ela agarrou as barras de pull-ups e jogou suas pernas sobre os ombros de Marcos, puxando a cabeça dele até que ela se encaixasse em suas virilhas. O ex-lutador foi arrancado de sua posição, esticando as correntes ao máximo, enquanto o corpo de dona Irene permanecia na horizontal, segurando as barras e prendendo o pescoço do homem. É como se ele estivesse numa guilhotina, com o queixo sobre a genitália da cinquentona. Ele sentiu a umidade do suor e a força das coxas, ao mesmo tempo contemplando, numa perspectiva inusitada, o abdômen definido e tensionado que há pouco dona Irene flexionara mais de quinhentas vezes. Ela ergueu um pouco a cabeça, o que fez contrair ainda mais a musculatura abdominal, e mirou nos olhos esbugalhados de Marcos, que inutilmente tentava sair daquela prisão .
– É pra isso que eu treino. Não quero competir. Não quero me exibir. Quero foder os homens que eu escolher. Mas com força. Com esta força. Está sentindo? Sou mais forte que você, Marcos. Você viu. Agora está sentindo.
De repente, ela soltou o pescoço de seu prisioneiro, caiu de pé, pôs as mãos na cintura e mais uma vez encarou o homem.
– Lute comigo.
Marcos lhe devolver um olhar entre estarrecido e incrédulo.
– Lute comigo – repetiu ela, num tom levemente irritado. – Vou te soltar – prosseguiu ela, ainda diante da descrença de Marcos. – Tente sair daqui. Eu estou nua, sem nenhuma arma. Só a minha força. Você é maior e mais jovem que eu, ex-lutador de MMA, instrutor de academia. Quero lutar com você. Saber se consigo te bater. Porque quero te bater muito. Mas, desta vez, sem amarras. Quero que se defenda. Se escapar, você acaba com minha vida. Se perder, eu te fodo. Muito. Todos os dias. Meu, você será meu.
Marcos nervosamente fazia "sim" com a cabeça enquanto ela falava, pois tinha absoluta certeza de que, se dona Irene fizesse o que estava dizendo, então ele conseguiria sair daquela situação absurda e se livrar logo das intenções doentias daquela mulher. Ele já se imaginava na polícia, detalhando as barbaridades pelas quais passou, trazendo os policiais até aquele covil, testemunhando a detenção da velha, vibrando com sua condenação à prisão até o fim da vida e com a exposição dela na mídia. Dona Irene pagaria por tudo aquilo, depois de levar uma bela surra dele. E fazia questão de espancá-la. "Legítima defesa", argumentou em seu pensamento célere, para logo cair em si: por mais atlética que fosse, era uma cinquentona trinta centímetros mais baixa que ele e sem nenhuma técnica de luta. Ao mesmo tempo, a proposta da sequestradora lhe soava tão descabida que Marcos só começou a acreditar nela quando, após breve saída, e sempre nua, dona Irene voltou com as chaves das algemas que o prendiam às correntes.
O sequestrado respirou fundo e não se apressou, enquanto ela soltava cada algema. Anos de treinamento o ensinaram a aguardar o momento para atacar. Quando ela liberou a última algema, no punho esquerdo de Marcos, ele lançou um desajeitado, mas potente jab de direita no rosto de dona Irene, que se desequilibrou. O ex-lutador aproveitou o desequilíbrio para lançar um segundo, agora com a esquerda, que atingiu o supercílio da mulher, abrindo uma ferida. Dona Irene, levemente curvada, estava em visível desvantagem e desorientação, agravada agora pelo uppercut que Marcos lhe desferiu com seu punho mais potente, fazendo a cabeça da sequestradora saltar para trás e seus dentes estalarem. Essa sequência não durou mais que alguns segundos, tempo suficiente para o treinador avaliar que havia sido o bastante para ele abrir a porta e escapar, desistindo de se vingar do espancamento que a velha lhe inflingira. Foi o que ele fez. Mas, ao torcer a maçaneta, constatou que a porta estava trancada, resistindo aos seus vigorosos puxões. Então ele gritou, o que o fez perceber que ainda estava com a mordaça na boca. Tarde demais. Dois braços vigorosos enlaçaram sua cintura, ergueram seu corpo e o atiraram de costas ao chão. Sob ele estava dona Irene, que habilmente abraçou suas costelas com as pernas, enquanto o enforcava com um potente mata-leão. Marcos balançava da esquerda para direita, aproveitando a alavancagem de suas longas e vigorosas pernas, tentando se desvencilhar, e, com as mãos livres, socava impiedosamente o rosto de dona Irene, que apertava o pescoço de seu prisioneiro. Foi então que ele se deu conta da força dela. O ex-lutador de MMA sabia que aquela situação era fatal: se ela continuasse a enforcá-lo assim, ele perderia os sentidos em quinze segundos. Então acentuou os murros na cabeça de dona Irene, até que tudo começou a escurecer.
Quando percebeu que Marcos desmaiara, rapidamente dona Irene o arrastou até a parede das correntes e o prendeu. Ela estava exausta, arfante, suada, gemendo. Toda a sua musculatura doía, mas especialmente o rosto. A mulher ergueu-se e se aproximou do espelho. Havia vergões em alguns pontos do corpo. O rosto, porém, estava bastante ferido. Do supercílio e do nariz escorriam filetes de sangue, assim como de um canto da boca. Os dentes latejavam. E um inchaço começava a aparecer no olho direito. Dona Irene voltou-se para Marcos, ainda inconsciente, algemado e encostado na parede. Ela se moveu diante do espelho, para que pudesse vê-lo ao fundo. Contemplando a cena, dona Irene flexionou o braço direito, exibindo seu bíceps bem pronunciado, contraiu seu abdômen musculado, curvou levemente os joelhos para forças as coxas,  sorriu e, com a mão esquerda, alcançou o clitóris, entregando-se a uma longa sessão masturbatória.

MuscleWomanBR

        Sandra desfez aos poucos o nó da faixa preta e abriu vagarosamente seu karategi, sem desviar o olhar de Marcos. Ela deixou a faixa cair. Sua pele morena brilhou à meia-luz da academia deserta, que acabara de ser fechada, enquanto seu abdômen definido, logo abaixo do top esportivo preto, pulsava numa respiração ligeiramente acelerada. Ao tirar a jaqueta do karategi, Sandra revelou seu tronco magro, mas atlético, típico de uma assídua praticante de musculação. Sempre encarando o treinador, ela apanhou a faixa preta no chão e tornou a amarrá-la na cintura fina. Seus gestos eram firmes, decididos. Nenhuma hesitação. Nenhum tremor.
   – Nenhum homem me engana, Marcos – começou ela.
   – Do que você está falando, Sandra? – Perguntou ele, estranhando a fala e o comportamento da namorada.
   – Você pensa que eu não sei?
   – Não sabe o quê? – O ex-lutador de MMA agora passava do estranhamento à raiva.
   – Todo homem é igual... – suspirou ela, com leve sorriso irônico, como se falasse para uma plateia. – Eu sei que você está trepando com aquela cadela que treina MMA aqui.
   – Você enlouqueceu?! Eu nunca tive nada com a Diana!
   – Louca? Marcos, você pensa que eu sou boba?! Eu vi você comendo aquela vaca no vestiário feminino... Pior! Eu vi aquela vagabunda fodendo você depois de te dar uma surra, seu pervertido! Eu descobri que você adora apanhar de mulher! Agora sei de onde vêm essas marcas no teu corpo... Entrei no histórico do teu navegador e vi os vídeos que você curte, seu veado! Você tem tesão em apanhar de mulheres, seu doente!
   – Não é nada disso, Sandra...
   A carateca deu dois passos em direção a Marcos, interrompendo-o com visível fúria.
   – Cala essa tua boca mentirosa, veado, porque eu vi tudo! Você não tem que me explicar nada! – E movendo pescoço e ombros, como que se preparando para uma luta: – Eu pensava que você estava comigo por amor, e não por perversão. Agora entendo: você está comigo porque sou faixa preta em caratê, porque malho pesado, porque amo meus músculos definidos, porque sou forte e gosto de ser forte. Você ia me usar para os teus fetiches doentios, seu psicopata!
   Marcos relaxa. Até sorriu um pouco.
   – Não sei de onde você tirou essa bobagem toda, Sandra. Você só pode estar surtada. Olha, vai pra tua casa e...
   – Filho da puta! – interrompe Sandra, berrando. – Eu vou pra casa depois de te quebrar! Você não gosta de apanhar de mulher?! Então agora você vai apanhar direito. Não vou te dar uns tapinhas como aquela vaca. Você vai apanhar de uma faixa preta!
   – Vai pra tua casa, sua puta! – grita Marcos, cerrando os punhos. – Ou sou eu quem vai te arrebentar!
   Sandra emite uma breve e nervosa gargalhada, contraindo o abdômen e assumindo postura de luta.
– Sandra, você não está bem, vai pra casa, esfria a cabeça, amanhã a gente conversa... – diz Marcos, em tom conciliador.
Antes que ele terminasse a frase, porém, a carateca desferiu um veloz, preciso e potente seiken tiudan zuki – um soco no estômago. Marcos berrou de dor. E acordou. Recostado na parede, percebeu que estava em plena ereção.
Dona Irene entra na edícula, atraída pelo grunhido alto de seu prisioneiro.
– Ora, ora, ora... Mas o moço estava tendo um sonho erótico? Estava sonhando comigo, homem bonito? Será que gostou de apanhar da velhota aqui? – E, antes que o pênis retraísse, dona Irene agarrou-o e começou a masturbá-lo. – Ah! Vamos dar um final feliz pra isto daqui, meu bem...
Marcos olhou para os bíceps pronunciados de dona Irene, que manipulava sua ereção com impressionante habilidade, provocando-lhe muito prazer. A imagem da musculatura definida de sua namorada no sonho e agora os bíceps de sua sequestradora, tensionados por frenéticos movimentos masturbatórios, pareciam lhe despertar uma excitação até então desconhecida. Os contornos dos músculos superiores de dona Irene lhe transmitiam a mesma aparência de potência que Marcos vira no corpo de Sandra, na cena onírica. A diferença era que a mulher que estava à sua frente era real e não desaparecia com o fim do sonho. Ele estava efetivamente sendo masturbado por uma mulher atlética, potente, forte – e tudo isso agora o excitava. Então o prazer falou mais alto. E Marcos relaxou, permitindo entregar-se a essa descoberta. Quando dona Irene talentosamente massageou sua próstata, o treinador ejaculou num delicioso orgasmo, que o arrepiou desde o couro cabeludo até às panturrilhas.